Dois minutos antes da decolagem do voo 2283 da VoePass em Cascavel, no Paraná, o copiloto Humberto Alencar gravou uma mensagem de voz para a esposa, Rosana. Era um bom dia carinhoso, com a tranquilidade de quem acabava de concluir mais um trecho de rotina.
“Agora na correria, para variar, para voltar, né? Saímos atrasados de Guarulhos, nossa, uma confusão danada. Passageiros de outro voo embarcaram no nosso. É impressionante, meu anjo, impressionante. Sempre tem uma confusão, sempre tem alguma coisa errada. Raramente tem um voo redondinho, sabe? Mas deu certo. O importante é que a gente chegou bem aqui e, se Deus quiser, daqui a pouquinho a gente decola e vamos chegar bem em São Paulo…”
Humberto e os demais 61 ocupantes do avião jamais chegaram ao destino.
O ATR 72-600, com 14 anos de uso e 68 lugares, caiu às 13h22 de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de chácaras na cidade de Vinhedo, interior de São Paulo. Todas as 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e 4 tripulantes — morreram. Em solo, ninguém se feriu.
O voo havia saído às 11h43 de Cascavel, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. O ATR é uma aeronave usada em trajetos regionais e voa em altitude mais baixa do que os jatos comerciais. Não houve qualquer aviso de emergência durante o voo.
A rápida resposta dos bombeiros foi decisiva para o trabalho de resgate e identificação das vítimas. A corporação chegou ao local da queda apenas seis minutos após o impacto e conseguiu conter o fogo antes que as chamas consumissem totalmente os corpos. Isso foi essencial para a atuação das equipes de perícia do IML, que conseguiram concluir a identificação das vítimas em tempo recorde. A Dra. Daniela Abe, responsável pela identificação odontológica forense das vítimas, classificou a agilidade dos bombeiros como “absolutamente crucial”.
O comandante regional do Corpo de Bombeiros de Vinhedo, capitão Armando, contou que as equipes foram acionadas imediatamente após a queda, com centenas de ligações em poucos minutos.
“No primeiro minuto foram mais de 100 ligações, e em 30 minutos passamos de 300 chamadas. Amigos ligavam, bombeiros de outras cidades avisavam, foi uma mobilização em rede. Eu estava de supervisor de serviço e vim direto para o local”, disse.
Segundo ele, mesmo antes de chegar ao ponto do acidente, as equipes já tinham noção do que enfrentariam. “Pelas redes sociais já víamos as imagens do avião caindo. A gente se preparou para o pior cenário”, afirmou.
“O bairro da Capela tem 11 escolas municipais, muita gente. A população foi tomada por uma dor coletiva. A cena do impacto foi marcante, uma tragédia que abalou toda a cidade.”
A professora Michele Cristina Simões de Oliveira, de 40 anos, mora a menos de 300 metros do local do acidente e viu tudo de perto.
“A gente começou a escutar um barulho muito forte, pensei que fosse caminhão arrastando ferro na rua. Mas estava intenso, em cima do telhado. Olhei pela janela, só vi uma partezinha do avião passando e, na hora, ele caiu. A janela tremeu, tudo balançou. Saí correndo. Minha sogra gritava: ‘Caiu um avião, caiu um avião”, contou à CNN.
“Não deu dois minutos e os bombeiros já estavam aqui. Eles chegaram muito rápido. A aeronave já vinha girando no ar, tentando estabilizar, mas não conseguiu. A ficha ainda não caiu pra gente, imagina pros familiares…”.
As investigações foram iniciadas no mesmo dia. Às 13h37, o CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) foi notificado. Às 14h11, o governo federal acionou a sala de crise, e por volta das 18h, as duas caixas-pretas foram localizadas e recolhidas. A análise dos dados segue em andamento.
A apuração ocorre em três frentes: dados de voz e instrumentos da aeronave; histórico de manutenção e condições técnicas; e clima e aspectos operacionais do voo. Um item em especial chama atenção: o pack do motor esquerdo, sistema responsável pelo ar-condicionado e pressurização, estava inoperante. Embora isso não impeça o voo, pode ter tido impacto indireto na operação.
Outro fator sob análise é a ferramenta usada pelos pilotos para checar a previsão do tempo. O voo estava dentro de parâmetros aceitáveis, e o céu estava limpo no momento do acidente. Ainda assim, especialistas apontam que as próximas fases da apuração devem incluir um aprofundamento nas rotas e comunicação da tripulação com o controle aéreo.
O acidente foi o mais grave em território brasileiro desde 2007, quando o voo 3054 da TAM colidiu com um prédio da própria companhia ao tentar pousar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Diversos moradores da região registraram o momento da queda em vídeos com os celulares. A imagem do avião girando no céu e caindo em espiral rodou o país, deixando em luto famílias de pelo menos dez estados.
Na segunda reportagem da série especial, que vai ao ar nesta terça-feira (5), a CNN Brasil vai trazer os bastidores da análise do local do acidente, da remoção dos corpos e a logística para acolhimento das famílias.

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