Conflito reacende debate sobre crimes de guerra e a aplicação de normas humanitárias
O prolongamento da guerra entre Israel e o grupo palestino Hamas tem provocado intensos debates no campo do direito internacional. A escalada do conflito, que já resultou em milhares de mortes e em graves crises humanitárias, levanta questões complexas sobre o cumprimento das Convenções de Genebra, a proporcionalidade no uso da força e a responsabilidade de líderes civis e militares.
Desde o ataque do Hamas a civis israelenses em outubro de 2023, que matou centenas de pessoas e desencadeou uma resposta militar de grande escala por parte de Israel na Faixa de Gaza, juristas e organismos internacionais têm alertado para possíveis violações do direito internacional humanitário por ambos os lados.
O que o direito internacional prevê?
O direito internacional humanitário, também conhecido como direito da guerra, estabelece regras para proteger civis, prisioneiros e bens essenciais em situações de conflito armado. As quatro Convenções de Genebra de 1949, ratificadas por Israel e amplamente aceitas pela comunidade internacional, são os pilares dessas normas.
Entre os princípios fundamentais estão:
Distinção: as partes em conflito devem sempre distinguir entre alvos militares e civis.
Proporcionalidade: o uso da força deve ser proporcional ao objetivo militar, evitando danos excessivos a civis.
Proteção de civis: ataques indiscriminados e o bloqueio de ajuda humanitária podem configurar crimes de guerra.
Israel, por sua vez, alega que suas ações visam exclusivamente alvos militares e que o Hamas se utiliza de civis como escudos humanos — o que complica a aplicação prática dessas normas.
O Tribunal Penal Internacional e possíveis investigações
O Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia, abriu uma investigação sobre possíveis crimes cometidos em território palestino, incluindo a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, desde 2014. O atual conflito pode entrar nesse escopo.
O procurador-chefe do TPI, Karim Khan, já declarou publicamente que ataques deliberados contra civis e a obstrução de ajuda humanitária são passíveis de responsabilização criminal.
Especialistas, no entanto, apontam que o TPI enfrenta limitações políticas e práticas para aplicar sanções a líderes israelenses ou do Hamas, principalmente devido à ausência de adesão de Israel ao Estatuto de Roma, que criou o tribunal.
O que dizem especialistas
Para a professora de direito internacional Maria Luísa Campos, é essencial que as normas sejam respeitadas, independentemente das motivações políticas.
“Nem o direito à legítima defesa de um Estado, nem a resistência armada de grupos insurgentes justificam ataques indiscriminados ou punição coletiva contra populações civis. O direito internacional não autoriza exceções nesse sentido”, afirma.
O advogado internacionalista Ricardo Tavares destaca que o bloqueio de alimentos, medicamentos e energia pode configurar crime de guerra, se caracterizado como forma de sufocar intencionalmente a população civil.
“Impedir o acesso de ajuda humanitária é uma violação grave e pode ser investigada tanto por organismos internacionais quanto por tribunais nacionais que adotam o princípio da jurisdição universal”, explica.
Pressão diplomática e impasse jurídico
Enquanto cresce a pressão internacional por cessar-fogo e investigações imparciais, a realidade política no Conselho de Segurança da ONU dificulta a adoção de sanções ou medidas mais concretas. Os Estados Unidos, principal aliado de Israel, historicamente vetam resoluções que possam condenar o país formalmente.
Por outro lado, grupos como o Hamas também são acusados de crimes de guerra, especialmente pelo lançamento de foguetes contra áreas civis em Israel e pelo sequestro de reféns.
O impasse evidencia a distância entre o direito internacional e a geopolítica: ainda que existam normas e tratados, sua aplicação depende da vontade política dos Estados e das limitações práticas de tribunais internacionais.
O que pode acontecer a partir de agora?
O prolongamento da guerra amplia o risco de novas violações e de ações que poderão ser analisadas por cortes internacionais no futuro, mesmo que julgamentos só ocorram anos depois.
A expectativa de especialistas é que, no curto prazo, a pressão por investigações independentes aumente, mas a responsabilização efetiva de líderes políticos ou militares envolvidos no conflito seguirá sendo um desafio de longo prazo no campo jurídico e diplomático.

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