Uma publicação nas redes sociais da subprefeita de Valéria, em Salvador, Kelly Barbosa Figueiredo Morais, provocou repercussão nesta quinta-feira (29), ao relacionar a prestação de serviços essenciais de saúde ao posicionamento político da população.
Na mensagem, a gestora utilizou a expressão “Faz o L”, associada aos eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acompanhada de declarações como “Não me peça ajuda na regulação”, “Não me peça consultas” e “Não me peça medicação”.
O episódio trouxe ao debate público uma questão fundamental: pode um agente público condicionar o acolhimento de cidadãos às suas preferências políticas? 
Saúde pública é direito, não favor político
A Constituição Federal estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado. O acesso aos serviços públicos não pode depender de filiação partidária, preferência eleitoral ou afinidade pessoal com quem ocupa um cargo na administração.
A gravidade da publicação está especialmente na referência à regulação médica, um serviço frequentemente procurado por famílias que aguardam consultas, exames, procedimentos e tratamentos.
Para cidadãos em situação de vulnerabilidade, a busca por atendimento pode representar uma necessidade urgente, e não uma escolha.
Embora não exista, até o momento, confirmação de que Kelly Morais tenha efetivamente negado atendimento a pacientes por razões políticas, o conteúdo divulgado levanta questionamentos sobre os limites da manifestação pessoal de agentes públicos e suas responsabilidades institucionais.
Prefeitura de Salvador anuncia apuração
Diante da repercussão, a Secretaria de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro informou que tomou conhecimento da publicação e esclareceu que a manifestação teria ocorrido em caráter pessoal, sem representar a posição oficial da administração municipal.
A pasta repudiou condutas discriminatórias e anunciou que o episódio será apurado internamente, com adoção das medidas cabíveis.
O posicionamento reforça que os serviços públicos devem ser oferecidos de maneira igualitária, independentemente das escolhas políticas dos cidadãos. 
Kelly Morais reconhece erro e pede desculpas
Após a repercussão, a subprefeita divulgou uma carta aberta à população de Salvador, reconhecendo a inadequação de sua publicação.
No documento, Kelly classificou sua manifestação como equivocada e incompatível com as responsabilidades de uma agente pública.
A gestora pediu desculpas especialmente aos moradores de Valéria e às comunidades que possam ter se sentido desrespeitadas, afirmando que a publicação não representa a orientação da Prefeitura de Salvador.
Ela também reconheceu a legitimidade das críticas e reafirmou o compromisso com o respeito e o acolhimento da população. 
Responsabilidade pública acima das divergências eleitorais
O episódio ultrapassa a discussão entre apoiadores de diferentes candidatos. Trata-se de um debate sobre ética administrativa, impessoalidade e o dever de atendimento universal.
O artigo 37 da Constituição Federal estabelece princípios que devem orientar a administração pública, entre eles legalidade, impessoalidade e moralidade.
A liberdade de manifestação política não elimina a responsabilidade de quem exerce uma função pública, especialmente quando suas declarações envolvem serviços essenciais.
O pedido de desculpas representa o reconhecimento público do erro, mas a apuração anunciada pela Prefeitura será importante para esclarecer as circunstâncias do episódio e verificar a necessidade de providências administrativas.
O voto é uma escolha do cidadão. O atendimento público é um direito constitucional. Nenhuma divergência eleitoral deve transformar o acesso à saúde em instrumento de distinção política.
